Sergio Goldenstein

Com muita consternação, recebi a notícia do falecimento de HERMES GOLDENSTEIN, meu irmão, primogênito da família, que aos exuberantes 60 anos de idade resolveu nos testar com mais uma de suas proezas: VIAJAR.

Para a rotina dele e de quem desfrutava de tão amável companhia, VIAJAR não significava em absoluto, qualquer tipo de novidade – muito pelo contrário – afinal, os últimos 44 anos, cerca de 530 meses, 16 mil dias e sei lá quantas horas, ELE passou viajando, cumprindo com zelo, afeição,responsabilidade e dedicação a função de caminhoneiro que norteou toda sua vida.

HERMES não era mais “UM”; ELE era “O” caminhoneiro.

Conseguia com seu jeito simples, refinar o profissional do volante, engrandecendo a categoria e sempre que podia, emprestava à seus semelhantes, seus conhecimentos qualificados de um perito extraordinário e que conhecia com profundidade o ato de dirigir com consciência, com prática, discernimento e muita noção. Dificilmente cedia as chantagens dos “guardas” e quando era inevitável reclamava: “hoje fiquei sem o café da manhã”.

Diante de tantas ações, deixou sua marca indelével na diretoria do Sindicato dos Condutores Autômos de Paranaguá na função de Tesoureiro.

Com uma comunicação pura “ELE” fazia amizades e estreitava relacionamentos, esparramando amigos pelas passagens e paragens das estradas deste país. De gosto aguçado apreciava todo tipo de tempero, não dispensava o aperitivo e muito menos a companhia dos mais “chegados”. Tinha sempre uma estória engatilhada, uma anedota inédita e respostas na ponta da língua. HERMES não gostava de levar desaforo pra casa e tinha por hábito “fazer no momento sem deixar pra depois”. De opinião em opinião ele foi construindo sua HISTÓRIA.

Não me recordo que a vida tenha lhe ofertado algum tipo de vantagem premiada. Tudo o que possuiu teve que buscar muitas vezes se embrenhando em matas fechadas e mergulhando em águas turvas, enfrentando o desconhecido, quebrando paradigmas. Talvez assim tivesse alguns dissabores na tragetória. Mas era suscetível de aplicações prática, voltado para a ação de boa conduta, verdadeiramente pragmático.

Outro dia fiquei sabendo que não acreditava muito em Deus. Entretanto toda vez que pegava a estrada fazia o sinal da cruz em clara atitude de quem buscava proteção divina. Portanto, temente a um Deus que só “ELE” sabia onde encontrar e que certamente não o desamparava. E creio que foi este DEUS que o tenha protegido pelos milhares e milhares de quilômetros perigosos pela rota percorrida neste estágio na terra.

E o HERMES finalmente VIAJOU.

Talvez a viagem que sempre buscara. Viajou com bilhete de ida e sem hora marcada. Foi embora sem contar pra ninguém. Tudo no maior sigilo. Não sei informar por quais aldeias, lugarejos, povoados que trafega neste momento. Só sei que a ausência dele está me dando uma saudade danada; uma dor inexplicável no peito; uma vontade de nunca mais parar de chorar.

Sei que irei lhe encontrar sempre na força incomensurável da nossa mãe;

no carisma da Sarita;

na fidelidade do Jaime;

no amor inexplicável da Clarinha;

no pulsar do coração do Israel filho, seu aluno de sempre;

na ausência da Yara;

na minha tristeza de tê-lo perdido.

Sei que irei reencontrá-lo na presença da minha filha Golda Meir, na perseverança da minha esposa Kátia e no som do saxofone do meu filho Israel Netto. Sou também sabedor que ousarei encontrá-lo em seu filho e filhas que igualmente sofrem com a “tal” VIAGEM.

Até outro dia, meu irmão querido. Eu que fui privilegiado em poder participar do seu show da vida, não pude te dar um beijo de até logo. Quer saber de mais uma coisa? Acho que vou é rezar por mim e pelos outros que comigo ficaram, pois certamente você, HERMES, já está sentado ao lado de DEUS-pai “o criador” juntamente com nosso ISRAEL o “pai judeu”.

TE AMAREMOS SEMPRE E OUSAREMOS FAZER DE SEU ENTUSIASMO NOSSA BANDEIRA.

Sergio Goldenstein

O poeta do Vale

 
 
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